Produção em países do oeste da África foi afetada pela escassez de chuvas e por doenças
Foto: Wenderson Araujo/CNA – Alta nos preços do cacau já provoca retração na demanda
A oferta apertada de cacau no mercado internacional e a demanda ainda resiliente fizeram os preços futuros da amêndoa atingir recorde ontem na bolsa de Nova York. Os contratos de segunda posição, com vencimento em maio, subiram 1,09%, para US$ 4.557 a tonelada, de acordo com o Valor Data. Com a alta de ontem, o cacau subiu em nove dos últimos dez pregões na bolsa nova-iorquina. Desde o início do ano, a valorização acumulada já é de 9,49% e em 12 meses, de 73,07%.
A alta nos preços do cacau já provoca alguma retração na demanda, mas o que tem pesado mais sobre as cotações é a oferta restrita, afirma Caio Santos, analista da StoneX. “Por isso, não há no horizonte uma perspectiva de os preços pararem de subir”, diz.
A explicação para esse cenário, que já se reflete nos preços dos chocolates nas gôndolas, é a redução na oferta de cacau da Costa do Marfim, o maior produtor do mundo. A produção no país foi duramente castigada pela seca, decorrência do fenômeno climático El Niño, e também por doenças que atacaram as lavouras.
Com isso, os volumes de cacau entregues nos portos do país tiveram forte retração. Dados da Associação de Exportadores de Cacau e Café da Costa do Marfim mostram que o volume entregue chegou a 955 mil toneladas desde o início do ciclo 2023/24, em outubro, até a última semana. A quantidade é 36% inferior à entregue no mesmo período do ano-safra anterior.
E, nesse quadro de déficit na oferta de cacau, a demanda pela amêndoa ainda se mostra resiliente, afirma Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Já há queda no processamento na Europa, mas em níveis inferiores ao esperado por analistas. No quarto trimestre de 2023, a moagem recuou 2,3% em comparação com o mesmo período no ano anterior. A expectativa era de que a retração fosse maior, de até 5%.
De acordo com a presidente da AIPC, um problema estrutural nos cacaueiros na região oeste da África acentuou a escassez de oferta nesta temporada. “A África enfrenta um problema de envelhecimento das plantas, o que se reflete em redução de produtividade. Além disso, não temos no horizonte outras regiões que produzam em patamar que venha a suprir a queda na colheita africana”, diz.
Na avaliação de Santos, da StoneX, há sinais de que os preços ainda não chegaram ao topo e podem subir mais na bolsa, testando o patamar de US$ 5.000 a tonelada.
Um desses indícios são os relatos de donos de armazéns na África com dificuldade para encontrar produto no mercado, diz. O mesmo cenário tem sido observado em algumas indústrias da Europa, acrescenta.
Também há informações de menor volume de cacau entregue nos portos de Gana, o segundo maior produtor mundial. Assim como a Costa do Marfim, o país africano deve produzir menos devido aos impactos do El Niño. “Os relatos de chegadas reduzidas em Gana aumentam a certeza de um novo déficit na produção de cacau no mundo”, destaca, em relatório, Jack Scoville, do Price Futures Group.
Já é consenso entre analistas que a demanda mundial vai superar a oferta pela terceira safra consecutiva. Santos, da StoneX, projeta déficit entre 310 mil e 315 mil toneladas. Ele acredita em manutenção desse cenário por mais uma temporada.
“Para a safra 2024/25, que começa em outubro, já se fala em um novo déficit. Temos uma deficiência na produção estrutural, e é por isso que os fundos seguem tão confiantes em novas altas na bolsa”, afirma o analista.
Fonte: Globo Rural
Texto: SistemafaebNotícia original disponível em:https://sistemafaeb.org.br/deficit-na-oferta-faz-cacau-bater-recorde-na-bolsa-de-ny/